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domingo

A conquista do poder

A história do nazismo confunde-se totalmente com a do seu criador, Adolf Hitler.
Aparecido nos redemoinhos que seguem a derrota alemã de 1918, o partido nacional-socialista dos trabalhadores alemães (NSDAP) começa por ser apenas um pequeno grupo de extrema-direita implantado em Munique (Baviera), recuperado e reorganizado por Hitler, que aí descobre um notável talento de tribuno popular.
Após uma desajeitada tentativa de putsch (Munique, 8-9 de Novembro de 1923) que lhe vale uma interdição temporária e o breve encarceramento do seu chefe, o movimento renasce, alimentado pela angústia provocada, na Alemanha, pela rapidez e violência da crise de 1929. Tendo feito a opção pela legalidade e pelo sufrágio universal, é constitucionalmente que Hitler é chamado à Chancelaria, em Janeiro de 1933, pelo presidente da República alemã, o velho marechal Hindenburg. Na altura, o partido nazi está longe de ser maioritário, mas uma série de manobras e de provocações dá-lhe pretextos para desmantelar e dissolver outras formações políticas e instaurar, em menos de um ano e meio, um regime de ditadura.
Num país humilhado pelo Tratado de Versalhes de 1919, devastado pela crise financeira de 1923, traumatizado pela depressão económica e desprovido de verdeira tradição democrática, o discurso hitleriano é sobretudo recebido como um apelo ao restabelecimento, à reconquista da dignidade e da grandeza nacionais. Hitler sabe habilissimamente mascarar de argumentos políticos os preconceitos populares: a xenofobia, o anti-semitismo, o antiparlamentarismo.
A direita conservadora vê, mais que qualquer outra coisa, no nazismo um meio de barrar o caminho ao comunismo. São as suas manobras que levam Hitler ao poder.
A Cultura de A a Z. Plátano, 2003.

sábado

A ascensão de Hitler ao poder


Os efeitos da grande depressão (1929 nos EUA) fizeram-se sentir em toda a Europa.

Na Alemanha dois partidos ganharam imediatamente adeptos em resultado da crise - os Comunistas e os Nacional-Socialistas. Os ganhos dos Nazis foram fenomenais: em 1928 tinham conseguido menos de um milhão de votos; em 1930 obtiveram quase seis milhões e meio e tornaram-se o segundo maior partido do Reichstag. (...)

A necessidade de um governo forte estava bem à vista: os agricultores estavam arruinados, ou julgavam estar, com a queda mundial dos preços dos produtos agrícolas; o desemprego crescia (...). De 1930 em diante os riscos concretos eram evidentes por todo o lado e o ambiente de receio ia alastrando sempre mais: os trabalhadores receavam o desemprego; as classes médias receavam (...) o colapso da lei e da ordem; os jovens receavam o futuro que parecia não ter mais nada a oferecer-lhe além da frustração. (...)

O êxito de Hitler e do Partido Nacional-Socialista proveio em grande extensão da habilidade de Hitler em jogar com os temores que quase todos os alemães sentiam (...).

As circunstâncias da Alemanha dos anos que vão de 1930 a 1932 eram tais que ofereciam abundantes oportunidades a qualquer demagogo que surgisse com promessas de um governo forte e do fim do desemprego. Hitler foi muito mais longe do que isso. A sua ascensão ficou a dever-se à extensão em que ele foi capaz de persuadir diferentes sectores da população da Alemanha de que ele queria o mesmo que eles queriam. (...) Mas ficou a dever-se também ao singular génio político do próprio Hitler, não só como orador e propagandista, mas como hábil manobrador de homens e de acontecimentos. Os propagandistas nazis (...) preocuparam-se posteriormente em mostrar que o triunfo de Hitler era inevitável (...).
Depois do fiasco do Putsch de Munique de 1923, Hitler podia ter sido rapidamente esquecido e posto de lado como mais um dos maníacos políticos do submundo da extrema direita nacionalista de Munique. Mas soube realmente aproveitar o seu período de encarceramento - treze meses, numas condições realmente benévolas - para escrever a sua autobiografia e sintetizar as suas opiniões no Mein Kampf, e assim que saiu da cadeia (...), principiou a reconstruir a sua carreira política numa base nova. (...)
Hitler esboçou no Mein Kampf, à parte a sua insistência sobre o perigo judaico, (...) aquilo que iria ser a sua política - controlo absoluto da educação, esterilização dos incapazes, conversão dos sindicatos em "órgãos representativos dos interesses ocupacionais" (...) isto significava na prática a eliminação do papel dos sindicatos na negociação de melhores condições para os trabalhadores. Hitler foi igualmente explícito no enunciado das suas metas de política externa - a abolição do Tratado de Versalhes, claro está, e o rearmamento, mas também muito mais do que isso (...) a expansão para leste e a obtenção do espaço vital germânico na Rússia.
Assim que a Alemanha foi atingida pela depressão, a construção meticulosa da máquina do partido realizada por Hitler principiou a dar dividendos. Hitler achava-se agora em posição de poder oferecer alguma coisas a quase todas as classes e grupos existentes na Alemanha. Num país onde o sentimento nacional era intenso e incluía uma grande diversidade de opiniões, desde o desejo dos liberais de corrigirem as injustiças do tratado de paz até à mística crença (...) na missão universal da Alemanha e na superioridade inata da raça teutónica, os reiterados ataques de Hitler ao Tratado de Versalhes (...), a sua promessa de restaurar a grandeza militar da Alemanha, tudo isso encontrava eco em muitos lados. (...)
(...) no seu programa social os Nazis ofereciam alguma coisa a toda a gente (...). A uma classe média inquieta com a sua situação económica Hitler oferecia uma ideologia baseada na salvação dos "pequenos": o pequeno comerciante seria protegido contra a concorrência dos grandes armazéns, o artesão independente teria um futuro garantido no seu trabalho. A burguesia escandalizada com o que ela considerava ser a imoralidade da vida nocturna de Berlim e a liberdade de uma parte da gente moça , acolhia com agrado um programa que declarava que o lugar da mulher era no lar, a cozinhar para o marido e a cuidar dos filhos. (...) Ao mesmo tempo o êxito dos Nazis nas áreas rurais era-lhes assegurado pela doutrina do "Sangue e Solo" e pelos louvores nazis às virtudes do agricultor germânico e a promessa de uma posição fulcral na nova ordem nazi e, de uma forma mais prática, pela esperança de auxílio do Estado e de subsídios nas épocas de baixas de preços dos produtos agrícolas.
Cada sector da população alemã escutava a mensagem que neste recheado programa lhe era particularmente dirigida e ignorava ou deixava de lado tudo o mais.
JOLL, James - A Europa desde 1870. Dom Quixote, Lisboa, 1982.