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sexta-feira

Rússia: Revoluções de 1917


Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, a modernização da Rússia estava ainda parcialmente realizada: com os seus 170 milhões de habitantes, ela apenas representava 5% do poderio industrial mundial. (...)

O mundo agrícola, largamente maioritário (cerca de 80% da população), sofria da falta de terras. A maior parte delas pertencia a uma nobreza absenteísta e pouco interessada na modernização agrária; a abolição da servidão, em 1861, fez multiplicar os camponeses sem terras ou muito pobres: os moujiks, que representavam um quarto dos camponeses. (...) os métodos de trabalho eram, no seu conjunto, demasiado arcaicos, excepto nas planícies de trigo do Oeste, que tinham feito do país o primeiro produtor mundial de cereais.


Um regime político autocrático e contestado


O sistema político russo continuou a ser um dos mais arcaicos da Europa, apesar de uma contestação crescente.

O Império russo foi governado autocraticamente pelo czar Nicolau II. Em Janeiro de 1905, em São Petersburgo, a repressão pelo sangue (no "Domingo Vermelho") de uma manifestação reclamando direitos políticos, provocou a formação espontânea, nas grandes cidades, de conselhos ou de pequenas assembleias de operários, os soviets, que organizaram greves de grande amplitude. Esta experiência revolucionária conduziu à criação, em 1906, de uma assembleia representativa, a Duma, e o esboroamento da popularidade do czar, já comprometida pela derrota na guerra contra o Japão, em 1905, e pelo escândalo causado pela presença do aventureiro Rasputine na companhia da czarina. (...)



A Primeira Guerra Mundial


As condições políticas e económicas criadas pela guerra aceleraram a queda do czarismo.

Os primeiros fracassos militares dos russos (...) depressa revelaram o estado de impreparação das tropas e a carência de material; o descontentamento cresceu na frente, levando ao reaparecimento de sovietes entre os soldados e as numerosas deserções (...).

Toda a economia se encontrava desorganizada. A situação era muito difícil entre os civis e especialmente nas cidades, devido a problemas de abastecimento. A inércia e a incompetência do poder conduziram os russos a organizar-se a si próprios e a antecipar, de facto, a revolução.


A Revolução de Fevereiro


A revolução de Fevereiro começou com um simples motim contra a fome.

Em 22 de Fevereiro de 1917, as mulheres manifestaram-se nas ruas de Petrogrado para protestar contra a penúria. Em 23 os operários entraram em greve e invadiram o centro da cidade. A partir dos dias seguintes, o movimento politizou-se: os manifestantes reclamaram o fim da guerra e a abdicação do czar. Este, pensando pôr termo ao motim, dissolveu preventivamente a Duma e deu ordens à tropa para disparar; mas, em 27 de Fevereiro, uma parte do exército confraternizou com os manifestantes, fornecendo-lhes armas. Petrogrado caiu então nas mãos dos insurrectos. Impotente, o czar abdicou em 2 de Março em benefício do seu irmão, que recusou o trono: foi o fim do czarismo. (...)


Desde o início da revolução, dois poderes paralelos tentaram impor-se.

Os liberais da Duma, juntamente com alguns socialistas moderados, formaram, em 27 de Fevereiro, um governo provisório. Este concedeu as liberdades fundamentais de opinião, expressão e de reunião, e prometeu a eleição democrática duma assembleia constituinte. Mas, formado na sua maioria por burgueses, acabou por desiludir o povo evitando pronunciar-se sobre a repartição de terras, condenando as ocupações das fábricas e mantendo a Rússia na guerra.



Os bolcheviques assistiram como espectadores à revolução de Fevereiro; Lenine, em exílio na Suiça, tal como numerosos opositores ao czarismo, voltou a entrar na Rússia com a ajuda dos alemães, que viam nele um pacifista. Após o seu regresso, ele enunciou nas Teses de Abril as suas posições: condenação do governo provisório, paz imediata sem condições, nacionalização das terras, controlo operário das fábricas. (...)



A Revolução de Outubro


Contrariamente à de Fevereiro, a revolução de Outubro foi cuidadosamente preparada.

Em Outubro, apesar das reticências dos outros chefes do partido bolchevique (...), Lenine julgou a situação amadurecida para passar ao segundo estádio da revolução, isto é, à tomada do poder pelos bolcheviques. Trotski, responsável pela defesa militar de Petrogrado, foi encarregado da organização das operações. Na noite de 24 para 25 de Outubro, os Guardas Vermelhos bolcheviques apoderaram-se dos pontos estratégicos: gares, pontes, centrais eléctricas, etc. O Palácio de Inverno, sede do movimento provisório, ameaçado pelo cruzador Aurora, foi tomado sem violência e o governo provisório foi disperso. (...)


Chegado ao poder sem ser conduzido por um movimento popular, o governo bolchevique tinha de tomar rapidamente medidas respondendo às aspirações do povo russo. Foi este o objectivo dos grandes decretos de Outubro-Novembro, que confirmaram uma situação já efectiva: a grande propriedade imobiliária era abolida sem indemnização e as terras confiscadas ficaram na posse dos sovietes; a pequena propriedade não foi, em contrapartida, posta em causa. O controlo operário foi instaurado nas fábricas. (...).



CAROL, Anne e outros - Resumo de História do Século XX. E. Plátano, Lisboa, 1999

quinta-feira

A experiência Soviética: A revolução na Rússia


Esta revolução anunciava-se havia muito tempo. O mal-estar era antigo, o regime estava dilacerado por múltiplas forças de desagregação, oposições políticas, forças sociais, partidos socialistas, minorias alógenas resistindo à política de russificação. As reformas empreendidas tinham abalado mais a estabilidade do edifício do que contribuído para o regenerar. Os reveses militares da guerra russo-japonesa, em 1904-1905, tinham enfraquecido o regime. Uma primeira revolução terminara bruscamente, em 1905, sem renovar o império.

Após 1914, se os primeiros meses da guerra começaram por ter como efeito, como, aliás, em todos os países beligerantes, um reforço da coesão interna, impondo silêncio às oposições, a continuação da guerra cedo acordou o mal-estar e o descontentamento. Os desaires, os sofrimentos impostos ao povo russo sem paralelo com os suportados pelos outros países, a organização deficiente do comando, dos reabastecimentos, da economia de guerra, prepararam a explosão que culmina com a abdicação do czar, em Março de 1917. É a segunda revolução russa.

Estabelece-se então uma república de facto, um governo provisório da burguesia liberal constitucional. Mas este regime será apenas uma transição: não possui autoridade, carece de apoios, não tem pessoal governamental preparado para enfrentar uma situação excepcional. A guerra é um problema quase insolúvel. Este governo pretende manter-se fiel aos seus compromissos, mas o povo quer a paz. O povo congratulou-se com a queda do czarismo, pois esperava que à mudança de regime sucedesse o fim da guerra. (...)

Os bolcheviques mantêm-se numa posição irredutível e apoiam-se num poder de facto: os sovietes. (...) No princípio de Novembro de 1917 - Novembro segundo o calendário ocidental, Outubro segundo o antigo calendário russo -, os bolcheviques desencadeiam uma terceira revolução, a definitiva, e tomam o poder quase sem um tiro.

É o início de uma experiência que ainda dura, o princípio de um capítulo absolutamente novo da história do mundo. (...)



RÉMOND, René - Introdução à História do nosso tempo. Do Antigo Regime aos nossos dias. Gradiva. Lisboa. 1994.